De resto do choro, ficam as palavras de saudade. Nesta semana faz um ano que meu pai morreu.
Nesta semana, meu eu queria vê-lo. Que fosse em sonho, que fosse um espectro. Meu eu queria vê-lo.
Lembro-me da última vez que o vi. Dei-lhe duas camisas e um joguinho com três cuecas. Ele tinha me pedido para trazer. Já faz mais de um ano que lhe dei um último abraço e disse-lhe "amo você, pai!". Seu sorriso de desdém manhoso está no eterno de minha lembrança. Seu tamanho pequenino, seus discursos embriagados, suas piadas, todas as coisas boas que cravam essa saudade nessa semana doída por sua ausência. Ele podia estar aqui com sua chatice reclamona, mas eu não sei o que foi dele depois do dia 6 de abril de 2011. Eu queria ir visitá-lo onde ele está. Eu queria poder senti-lo, queria não poder sentir essa tristeza. Queria poder perder o medo de ficar só... medo que não sai. Medo de que ele convide minha mãe para junto de si... medo que não sai.
Hoje, se ele ainda estivesse aqui, estaria com sua chatice reclamona, mas estaria aqui. Perdê-lo foi perder 50% do que eu era. Metamorfose da morte. A vida é um sopro e a morte uma constante. A vida passa em milésimos de segundos, a morte é um registro perene. A morte fica. Os olhinhos cansados da vida de meu pai descansaram. Onde será que ele está? Será que ele renasceu? Será que ele ressuscitou? Será que ao pó simplesmente voltou?
Saudade do que me tiraram. Dão-me a vida e a tiram de mim aos poucos: primeiro alguns amigos, depois meu pai, depois outros amigos.
Eu queria escrever um texto de alegria, porque quero acreditar que o meu pai está no lugar que ele mais amava estar: perto do mar. Com sol ou com chuva, mas perto do mar. Quero que ele esteja com o seu violão, cantando com sua voz linda, contando piada, fazendo as pessoas ao seu redor sorrirem. Quero vê-lo feliz, como muitas vezes vi.
Se nascer dói, não me lembro. Se morrer doerá, não o sei.
Nascer e morrer: a vida é um sopro de dias, de meses ou de anos. Quantos, não os sei.
Todos os dias permito-me nascer e morrer. Não sinto dor. São falsos então estes meus atos de nascer e morrer?
Paizinho, quero deixá-lo descansando em paz, mas meu eu questionador meio cético meio pseudocristão leva-me à tormenta de um estado de espírito que não sossega - vai e vem, vai e vem, vai e vem. Egoísmo de minha parte, queria que viesse me contar tudo sobre tudo. Se não vem, começo a crer que tudo é orgânico pó.
Saudade. Resumo do vazio. Motivo do choro. Desejo da reclusa. Eminência do ceticismo.
Paizinho, a única coisa que me resta é continuar vivendo. Não sei se um dia vou reencontrá-lo, queria muito que esse reencontro fosse fato certo, evento verídico. Ninguém, nenhuma literatura ou ciência pode me assegurar. O ser humano é mau, quando menos mau, é louco, e eu, cética, má e louca - ser humano eu - e sou boa - o que me traz esperança do incógnito. Acredito somente no meu amor - este amor que chora saudade.
Paizinho, já que é quase Páscoa, conforme algumas literaturas, meu amor deseja que vire um anjinho, ou uma estrela, e que passe a divertir os seres humanos com espíritos perdidos em intrínsecos questionamentos.
Paizinho, enquanto eu viver, sentirei saudades.
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