Ela, só, nem amazonas era, tinha como dever matar a Hidra de Lerna que morava dentro de sua psiquê. Aos poucos foi vencendo cabeça por cabeça.
A Hidra de Lerna tem 7 cabeças venenosas, uma delas é imortal. Assim, a mocinha de nossa história tinha como dever ir pondo fim às vidas destas cabeças que o tempo todo faziam vazar um veneno dentro de si.
Quando deu cabo da primeira cabeça, estava em idade de menina muito jovem. Foi numa tarde de junho qualquer, tomou coragem e com um beijo desmistificou alguns segredos que aquela cabeça trazia a respeito da vida. Ela havia mostrado à Hidra que beijar pecado não era, e o fez. A cabeça, transtornada com a ousadia da garota, caiu no chão e soltou um vapor verde oliva que fedia enxofre. O Vapor fez com que nossa mocinha se apaixonasse em vão, mas como nossa mocinha sabia fazer bom uso de sua astúcia, verificou que tal paixão era fruto do veneno mortífero da cabeça número um da Hidra.
O caso da segunda cabeça ocorreu de modo inusitado. Nossa mocinha estava há dois meses tentando conhecer as verdades do mundo relacionando sexo e amor. E o fez. E gostou. Como da primeira vez, ao tombar a segunda cabeça, novamente surgiu aquele vapor verde oliva que cheirava enxofre. Nossa mocinha assim, deixou-se tomar por um sentimento de culpa que começou a transtorná-la: havia pecado gravemente! Então nossa mocinha muito ponderou, reencontrou seu espírito aquietando-o e, enfim, viu que aquilo fazia parte do curso natural da vida, e que não havia pecado, apenas dado mais um passo adiante.
Num dia qualquer, fez tombar a terceira cabeça. Foi em um episódio em que afrontara seu patrão que a explorava. Afrontou-o e não teve medo das consequências, sabia que estava certa e que não deveria subjugar-se ao seu poder. Repete-se o evento. Repetem-se as dores emocionais, e a mocinha põe-se a chorar desempregada, crendo ter feito algo inadmissível. Passadas algumas semanas, tudo está arranjado novamente, pois aos astutos nunca falta trabalho, e percebe que sua culpa infundada era oriunda mais uma vez do vapor de enxofre da terceira cabeça caída.
E seguem-se os históricos das outras três cabeças derrotadas: a quarta com o grito de independência, indo morar longe de casa, a quinta com o primeiro porre, a sexta com o primeiro casamento.
Anos e anos se passaram... nossa mocinha já se encontra senhora, na casa dos 30, 40, talvez já 80 anos. Uma anciã. Sábia senhora a tentar fazer entender que uma cabeça sempre restará imortal, a envenenar frequentemente o "eu". Sua cabeça solta constantemente um vapor ainda mais verde, ainda mais fétido de enxofre. Quando se acorda, está ali para desejar "mau dia". E acompanha o "eu" infinitamente, estando acordado ou dormindo. Como vencê-la? Trapaceando-a, talvez, imaginando como nossa mocinha se livrou das outras seis cabeças.
Livrar-se da sétima cabeça é deveras uma utopia.
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