segunda-feira, 12 de março de 2012

Por que Proust

Explicar a arte por meio de palavras, explicar a vida por meio da arte. A obra literária de Proust é uma demonstração do trabalho do escritor em transmitir por um romance a sinestesia do "amante" das artes e do "observador" do significado real da vida. É um trabalho que transmite pela leitura a imagem de uma cena teatral, a imagem de um telejornal, os sons, os odores, os sabores, tudo escrito de maneira engenhosa e artisticamente cuidadosa, uma leitura que penetra todos os cinco sentidos do leitor.

Ler uma cena Proustiana é permitir-se acessar o desconhecido de nosso inconsciente. É deixar-se fazer resgatar sentimentos sobre os quais nunca depositamos a nossa atenção. Ler a cena em que o herói "ouve" a grande Berma é permitir-se passar pelo herói e permitir-se também, deixar-se tomar pelas suas sensações. É como se também tivéssemos, assim como o herói, tido a oportunidade de ouvir Berma interpretando Fedra.

Os dissabores em ouvi-la, comparados às experiências do narrador, que não é uma criança, mas um "eu" que fala de sua experiência no teatro quando era um adolescente, é um convite para uma reflexão sobre "aquilo que se espera" e "aquilo que se tem". Logo, a decepção do herói com relação a Berma é frustração porque o que ele espera é diferente do que ele imaginara. Não é questão da cena ser ruim ou boa: simplesmente é uma questão de frustração. A literatura de Proust, assim, é um convite ao mundo do "eu" aprofundado nas mais intrínsecas particularidades do universo do indivíduo.   

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