o beco é um esgoto sombrio por onde se arrastam os trapos escondidos na memória inapagável. a memória que ao mesmo tempo é inapagável e inacessível. o cheiro não pode ser sentido pelo olfato senão pela imagem grotesca distorcida pelo não reconhecimento. máquina de um algo maior qualquer rasteja-se ignóbil. sorri a fingir-se. não teme. não ama. não sofre. e nesse contínuo segue a temer, amar e sofrer. e nada será feito a não ser que se espere um pulso de hormônios. e nada será mudado até que haja paixão. gozo. adrenalina. vontade. desejo. no agora escorre um grunhido mudo e forte, e alto, e obtuso, e gauche, e grosso, e desvelado. escorre sobre uma escadaria descendente. almeja encontrar o buraco das respostas. serpenteia no imaginário do não real. morre e aviva-se. morre e vem. não morre. permanece escorrendo por minutos horas dias meses anos intermináveis. resposta. ignara. um livro se abre e revela uma alusão a mais. analogias escorrem a escadaria velha de feridas rotas saturadas e charcadas de um charco asco desmedido e cinzento. talvez verde musguento. não negro, porque negro é lindo, tem significado concreto. verde musgo combina melhor. é menos definível. escorre mais. o cair da gosma fétida é um escorregar degrau a degrau lentamente, do primeiro para o segundo, ao chegar no quinto começa a ganhar peso e acelera-se o tombar, e o líquido nojento desce de forma mais e mais pesada. nojento. não dói. maculado. alívio das desgraças em uma única desventura. sofrimento agudo do não saber. a ignorância que traz o conhecimento amálgama à alma um espírito confuso e desordeiro em busca da perfeição da forma que busca o desformar-se. finge-se. come-se. finge-se. sorri-se. finge-se. ama-se. finge-se. abraça-se. finge-se. dorme-se. finge-se. descansa-se. finge-se. ocupa-se. finge-se. conversa-se. e por fim finge-se. chega a massa densa escorregando vagarosamente e torna permeáveis os degraus por meio de seu poder de corrosão. enterra-se. e conclui-se.
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